Newsletter #30 · Polarização e prática clínica

Os tempos não estão difíceis porque as pessoas ficaram piores, mas porque a opinião virou identidade e o ambiente digital paga mais pela raiva.

Esta newsletter não toma partido, mas fala de um funcionamento humano que aparece dos dois lados.

23 de outubro de 2026 · 11 min de leitura

“Cuide do vínculo antes do argumento.”

Imagina um almoço de domingo. Alguém comenta uma notícia e, em dois minutos, o irmão levanta a voz e a tia sai da mesa. Ninguém mudou de ideia, e todo mundo saiu mais certo do que entrou.

Agora imagina outra cena: uma paciente chega à sessão cansada, relata que saiu do grupo da família no WhatsApp e diz que não reconhece mais pessoas que ama.

Estamos em ano de eleição, e essas cenas ficaram comuns, no consultório e fora dele. Busquei na ciência o que temos sobre isso.

Aviso logo: esta newsletter não toma partido, mas fala de um funcionamento humano que aparece dos dois lados.

O cérebro separa em times muito rápido

Uma meta-análise reuniu 87 conjuntos de dados de ressonância magnética, com 2.328 participantes (Saarinen et al., 2021). A pergunta era simples: o que o cérebro faz diante de alguém do próprio grupo e de alguém de fora? [1]

A resposta surpreende porque não existe um circuito único da divisão: a mesma área responde de um jeito ou de outro conforme a situação. A ínsula, por exemplo, se ativa mais com rostos de fora quando a tarefa é só olhar e se ativa mais com rostos do próprio grupo quando essas pessoas aparecem sentindo dor.

O dado mais forte vem dos times sorteados. Os pesquisadores dividem as pessoas ao acaso e marcam cada lado com uma cor. Não existe história nem conflito entre elas e, mesmo assim, o cérebro passa a tratar de forma diferente quem é do seu time.

Ou seja: saber de que lado alguém está já basta para mudar a forma como o cérebro processa essa pessoa.

Não existe cérebro de direita ou de esquerda

Panish e Nam (2024) revisaram estudos que compararam o cérebro de pessoas com posições políticas diferentes. Uma das regiões mais investigadas foi a amígdala, envolvida, entre outras funções, no processamento de ameaça. [2]

Em uma replicação com 928 participantes, Petropoulos Petalas e colaboradores (2024) encontraram uma associação pequena entre identificação conservadora e volume da amígdala: r = 0,068. A correlação varia de −1 a 1, e um valor tão próximo de zero indica uma relação linear muito fraca. É um resultado de grupo, que não permite olhar o cérebro de alguém e saber em quem essa pessoa vota. [3]

Então, quando alguém diz que o outro lado tem um cérebro defeituoso, a ciência não sustenta isso.

Quando a opinião vira parte de quem eu sou

Aqui está o centro do problema. Jost, Baldassarri e Druckman (2022) discutem duas motivações que ajudam a compreender a polarização: proteger as próprias crenças e proteger o grupo ao qual se pertence. [4]

A primeira é proteger o que já se acredita. Quem defende uma posição há anos discutiu com a família, votou e escolheu amigos com base nela. Aceitar que estava errado obriga a rever tudo isso e a própria capacidade de julgar.

A segunda é a identidade. Quando um partido ou um líder deixa de ser preferência e vira parte de como a pessoa se descreve, a crítica ao grupo é sentida como crítica a ela. Defender o grupo passa a ser defender a si mesma.

Os estudos de neuroimagem ajudam a investigar isso. Kaplan, Gimbel e Harris (2016) apresentaram contra-argumentos a 40 adultos com convicções fortes. A força das crenças não políticas caiu, em média, 1,28 ponto numa escala de 7, enquanto a das crenças políticas caiu 0,31. A mudança média foi cerca de quatro vezes maior para as crenças não políticas. [5]

O cérebro também respondeu de modo diferente. A contestação de crenças políticas, em comparação com as não políticas, produziu maior atividade na rede de modo padrão, associada, entre outras funções, ao pensar sobre si mesmo. Kossowska e colaboradores (2026) fizeram uma replicação conceitual com 43 pessoas e encontraram um padrão principal semelhante. [5] [6]

Um cuidado importante: as duas amostras eram de pessoas progressistas, e nenhum desses estudos comparou os campos políticos. Nada aqui autoriza dizer que um lado é mais rígido. Uma interpretação discutida pelos autores envolve o quanto a crença está ligada à identidade, algo que também pode acontecer com religião ou time de futebol. Os estudos não isolam a identidade como explicação única. [5] [6]

Pessoas adultas conversam à mesa durante um almoço em família.
Quando a diferença de opinião ameaça o vínculo, o desacordo pode ocupar a mesa inteira. Imagem ilustrativa gerada por IA.

Mudar de ideia pode custar caro

Quando chega uma informação que contraria o que acreditamos, surge um desconforto real. A psicologia chama isso de dissonância cognitiva. McGrath (2017) mostrou que mudar de ideia é só uma das saídas para esse desconforto. [7]

Existem saídas mais baratas, como duvidar da fonte, achar o episódio irrelevante ou lembrar que o outro lado fez pior. Também é possível simplesmente não pensar mais no assunto. Todas aliviam o mal-estar sem tocar na crença.

E a gente pode fazer isso sem perceber. Em um experimento, pesquisadores inverteram em segredo respostas sobre princípios morais. Dos participantes, 69% não perceberam pelo menos uma de duas trocas. Muitos também construíram argumentos para defender a posição contrária à que tinham escolhido minutos antes (Hall et al., 2012). [8]

Em outro estudo, o argumento da própria pessoa voltava para ela como se fosse de outra pessoa. Cerca de metade não percebeu a troca, e mais da metade desses participantes rejeitou o próprio argumento (Trouche et al., 2016). Enxergamos bem o erro do outro, mas o nosso passa. [9]

O dado que mais me incomodou

Tudo isso já existia antes das redes. O que mudou foi o ambiente.

Uma revisão de 136 estudos sobre compartilhamento em diferentes áreas encontrou que conteúdos com carga emocional tendem a ganhar mais circulação, embora os resultados variem. Em comunicação política, emoções negativas aparecem com frequência nesse padrão (Bak, 2026). Num estudo com publicações do Twitter, mensagens com raiva alcançaram mais pessoas e formaram cadeias de compartilhamento mais longas do que mensagens com ansiedade (Han et al., 2023). [10] [11]

Parte da explicação está no ambiente. Em plataformas que distribuem conteúdo conforme o engajamento, mensagens que provocam reação podem ganhar mais exposição. A raiva pode alimentar esse ciclo, sem que seja preciso alguém coordenar cada compartilhamento. Isso não significa que um estudo de circulação, sozinho, prove o efeito do algoritmo. [10] [11] [12]

Pense em duas mensagens de campanha: uma mostra propostas com dados e fontes. A outra diz que sua família estará em perigo se determinado candidato vencer e pede para compartilhar antes que seja tarde. A segunda corre muito mais rápido, e a velocidade não diz nada sobre se ela é verdadeira.

Tem mais um ponto que me fez parar: raciocinar bem não garante proteção contra o viés a favor da própria posição. Em temas politizados, essa capacidade também pode ser usada para construir justificativas para o que a pessoa já queria manter (Van Bavel et al., 2024). Às vezes, a inteligência vira advogada da crença. [12] [16]

Então por que os tempos estão difíceis?

Juntando esses achados, a resposta que a ciência ajuda a construir é esta: temos um cérebro que separa o mundo em times muito rápido e crenças políticas que podem virar parte da identidade. Mudar de ideia pode ter um custo alto, enquanto o ambiente digital pode ampliar a circulação da raiva e favorecer o contato com quem já concorda conosco. [1] [4] [10] [12]

Van Bavel e colaboradores descrevem um círculo em que a pessoa confia mais nas fontes do próprio grupo e pode acabar encontrando menos informação contrária, com menos ocasiões para reconsiderar. A crença pode ficar estável também por causa desse ambiente, e não apenas pela força das evidências que a sustentam. [12]

O que a evidência diz que ajuda

Aqui tem uma boa notícia: a abertura não depende só de raciocínio, mas de contexto e de segurança emocional.

Num experimento de Rathje e colaboradores (2023), pessoas julgaram se manchetes eram verdadeiras ou falsas. Na condição que oferecia recompensa por acertar, o viés partidário foi 31% menor do que na condição sem recompensa. O resultado mostra como mudar o incentivo pode melhorar o julgamento, sem que seja preciso mudar a inteligência das pessoas. [13]

A meta-análise de Hart e colaboradores (2009) traz algo contraintuitivo: a preferência por informações que confirmam a própria posição foi menor em algumas condições de validação prévia e maior confiança. Isso não quer dizer que toda convicção forte produza abertura, mas mostra que a necessidade de se proteger também pesa na escolha do que ouvir. [14]

Hartke, Gugssa e Cohrs (2026) revisaram 24 estudos empíricos sobre competências e intervenções ligadas à humildade intelectual. Eles descrevem essa humildade como reconhecer que se pode estar errado sem viver isso como perigo. Para pensar nas práticas discutidas pela revisão, podemos organizar alguns exemplos em três caminhos. [15]

O primeiro trabalha o pensamento: escrita reflexiva, diários e uma técnica chamada distanciamento. Nela, a pessoa examina a própria posição como se fosse de outra pessoa, por exemplo escrevendo sobre si na terceira pessoa. [15]

O segundo trabalha a segurança emocional, com exemplos como respiração, práticas que diminuem o foco em si mesmo e experiências de admiração e gratidão. [15]

O terceiro trabalha a situação, e o principal exemplo é o diálogo estruturado: falar em primeira pessoa, admitir o que não se sabe, validar o ponto de vista do outro e combinar que o objetivo é aprender, não vencer. [15]

Os autores também propõem um princípio de dose: a contestação precisa ser forte o bastante para mexer e contida o bastante para não sobrecarregar. Eles observam que essas práticas podem ter limites no meio de uma discussão já quente. Isso é uma orientação dos autores, não uma garantia de resultado. [15]

Minha posição

Polarização não pode ser explicada só por falta de caráter ou de inteligência. O viés a favor da própria posição mostrou pouca relação com medidas de inteligência nos estudos revistos por Stanovich e colaboradores (2013). A proteção da identidade é parte desse funcionamento humano, que pode ser amplificado por um ambiente que lucra com a raiva. [16] [12]

Por isso, eu acho que despejar dados no meio da briga não funciona. Quando a crença está ligada a quem a pessoa é, o argumento pode chegar como ameaça e favorecer uma resposta defensiva, em vez de uma atualização. [4] [12]

Também quero ser honesta sobre os limites. Uma parte importante dessa literatura foi produzida nos Estados Unidos e na Europa, e alguns estudos têm amostras pequenas. A revisão sobre populismo cobriu mais o populismo de direita, com menor atenção a emoções positivas, como esperança e orgulho (Bliuc et al., 2026). Ainda temos muito para entender. [17]

E, como psicóloga, tenho uma posição clara sobre o consultório: nosso papel não é escolher lado na sessão. O Código de Ética veda induzir convicções políticas no exercício profissional. O que cabe a nós é ajudar a pessoa a entender o que está em jogo para ela quando o conflito aparece. [18]

Duas mulheres conversam em um consultório, em uma cena de escuta.
Escutar o que está em jogo para a pessoa pode abrir espaço para uma conversa diferente. Imagem ilustrativa gerada por IA.

Um caso que me ensinou isso

Uma paciente me relatou recentemente que tinha brigado com o pai por causa de política. Os dois não se falavam havia semanas. Nas primeiras sessões, ela só queria provar que estava certa e só trazia notícias, números e prints.

A virada veio quando a pergunta mudou. Saímos de quem estava certo e fomos para o que ela sentia quando o pai discordava. A resposta veio devagar: ela se sentia desprezada, como se a opinião dele dissesse que ela era ingênua. A discussão nunca foi sobre o candidato, mas sobre ser respeitada pelo pai.

Ela não mudou de opinião política, e nem precisava. O que mudou foi o que buscava na conversa. Voltou a falar com o pai combinando um limite: política fica fora do almoço de domingo. Assim, o vínculo voltou antes de qualquer acordo.

O que isso muda na sua segunda-feira

Quando um paciente trouxer conflito político, investigue o que está em jogo para ele: pertencimento, medo de perder um vínculo ou sensação de não ser respeitado. O mérito da opinião não é o foco.

Não tente convencer ninguém no pico da emoção. Combine outro momento, porque a emoção alta pode dificultar a abertura. [15]

Se for conversar com alguém que pensa diferente, use as regras do diálogo estruturado: falar em primeira pessoa, admitir o que não sabe, validar o outro e combinar que o objetivo é aprender. [15]

E cuide do vínculo antes do argumento. Quem se sente seguro pode encontrar mais espaço para ouvir o outro lado.

E você: qual foi a última vez que mudou de ideia sobre algo importante? Ou que ouviu alguém sobre algo diferente do seu? O que tornou isso possível?

Fabiane LimaFabiane LimaNeuropsicóloga · CRP 06/90308

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Pessoas adultas conversam à mesa durante um almoço em família.
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